Jogo dos 7 erros

Mulher é um ser complicado. Fato.
Mas tem homem burro, que triplica a complexidade.
Foi o que aconteceu com o Rafinha. Rafinha era um cara normal, não era pegador, mas também não passava fome. Era meio devagar, é verdade. Mas não passava fome.
Janeiro, calor infernal em Porto Alegre. Rafinha não era do tipo que usa terno, mas aquele dia, formatura de sua colega de empresa, sentiu-se na obrigação de colocar pelo menos um blazer. Jeans, camisa, e blazer. Estiloso, foi o que pensou. Não abriu mão do seu All Star, companheiro de batalha. E nem fez a barba, sua marca registrada. Pentear o cabelo então, nem pensar.
Na festa, conheceu Carol. Oriental, vestia um longo vermelho estonteante. Destacava-se do resto. Carol era diferente. Era exótica. E o melhor, era muito gostosa.
Rafinha, que era um pouco lerdo, como eu já disse, demorou uma hora pra chegar, duas horas conversando, mais meia hora até encostar a mão, e finalmente, mais uma hora pra beijar. Um único beijo, troca de telefones, imails, msns e orkuts, e tchau.
Chegou em casa e mal podia dormir. Levantou, entrou na internet. Adicionou no Orkut, no MSN. Mandou o primeiro imail. Ela leria no outro dia, pensou.
Fez o melhor convite que tinha em mente. Convidou pro teatro. Logo ele, que nunca havia estado no teatro. Mas Carol merecia. Era do tipo culta, decidida, independente.
48 longas horas se passaram, até que Carol respondeu. “Ok” foi sua resposta, para o imail de duas páginas escrito por Rafinha.
Ele, prontamente, entrou no Google Maps, traçou 2 rotas possíveis entre sua casa e o teatro, passando pela casa de Carol (detalhe: Rafinha morava em Cachoeirinha, cidade da região metropolitana, longe pra caralho caramba). Escreveu outro imail gigante, e mandou pra Carol, cheio de explicações, cronogramas e as rotas.
Carol respondeu: “me pega as 8”.
Definitivamente era uma mulher do tipo independente. Do tipo “me viro sozinha”. Do tipo “se pudesse engravidar de vibradores, homens seriam dispensáveis”. Foi o que pensou Rafinha.
Mas Rafinha não era muito bom nisso. Nisso de lidar com mulheres independentes. Era acostumado com meninas, gurias do segundo grau. Aquelas que, diante de seu sorriso barbudo derretiam. O que fazer?
Vou tratá-la de igual pra igual, pensou. E foi o que fez.
Primeiro, vestiu-se fashion. Se a mulher podia ser independente, ele podia ser fashion. All Star de guerra, calça verde de lona, camisetinha de mamãe to forte (aquela com as manguinhas mais curtas), bolsa de lona. Fashion. Estiloso. Esse foi seu erro número 1.
Afobado, cometeu o segundo erro (da noite, pq seus emails gigantes durante a semana também contam como erros). Combinou as 8 com uma mulher? Chegue 8:15, e ainda assim estará adiantado. Rafinha não sabia essa regra. Chegou dez pras oito, e já ligou pra Carol, dizendo que estava esperando na porta da frente.
Carol desceu, ainda terminando de se arrumar.
Erro 3: Desceu e abriu a porta do carro. Oras, se sabia que a mulher bancava a independente, não devia ter feito isso. Ela já fechou a cara.
Chegando ao teatro, erros 4 e 5, em seqüência. Primeiro, confessou que era sua primeira vez no teatro (leia-se amador). Imagina no que mais poderia ser sua primeira vez. O quinto erro foi o pior. Foi tão ruim que merece um parágrafo (ou 2) só pra ele.
Na hora de comprar os ingressos, Rafinha, lembrando-se que estava com uma mulher independente, perguntou: “tu vai pagar com a tua carteirinha de estudante? Da 50% de desconto!”. PeloamordeDeus!! Rafinha!! Por mais que tu acredites na independência da mulher, não pergunta COMO ela vai pagar!! E ainda por cima incentivando o uso de carteirinha estudantil, por desconto!
Não não. Rafinha, não devia ter feito isso. Nesses casos, dirija-se a bilheteria. Se a mulher quiser pagar, ELA faz a frente.
Agora, já no interior do teatro, o erro 6. Rafinha levou exatamente 3/4 da peça pra tocar a moça! Vejam bem, pra TOCAR. Beijo? Só na saída.
Ora bolas Rafinha!! Devagar tudo bem! Mas assim tu perde corrida pra lesma!!
Na saída, Rafinha sugeriu uma extensão do programa, quem sabe um jantar. Carol, mesmo varada de fome, negou. Como poderia sair pra jantar com um cara que não se ofereceu nem pra pagar o teatro? No mínimo ia levá-la pro Mcdonald’s, e deixar que ela pagasse. Não não. Melhor ir pra casa. Não queria arriscar ser vista por ai com um cara que tem a bolsa mais bonita que a dela.
Já no estacionamento, o erro 7. Rafinha estava, definitivamente, decidido a destruir a noite. Era verão, céu limpo, um pouco de vento. Rafinha soltou a pérola: “Noite perfeita pra….”
Adivinhe, querido leitor. Noite perfeita pra que? Vamos lá, use a criatividade.
É, eu também pensaria nisso. Mas não foi o que ele disse.
Rafinha disse: “Noite perfeita pra soltar pipa!!!” (assim mesmo, com três exclamações). Ah, purfavor Rafinha. Vai soltar pipa então.
Carol pegou sua bolsa, bateu a porta do carro e saiu. Passos largos. Onde tu vai? Perguntou Rafinha. Pegar um taxi, disse Carol.
E assim Carol se sumiu num gol laranja, pela noite porto alegrense.

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